Será difícil descrever aos moradores de hoje o que era a Ribeira funda do passado. As fotografias e os filmes nos mostram as casas, algumas cobertas de colmo, as ruas de terra batida, crianças que se posam para serem fotografadas, mas não captam a verdadeira vivência, a relação afectiva e o círculo íntimo de solidariedade. Era uma ribeira sem água, era um mundo de trabalho, de paisagens despidas de verde. Das poucas acácias, destacavam-se as duas árvores frondosas da casa de nhô Zé da Graça onde refugiávamos do sol abrasador depois das partidas de futebol atrás de casa de nha Tuda. Um ambiente de cheiros a fumo da lenha, a palha para a alimária, o ruído dos moedores e do pilão, a algazarra das crianças descalças correndo atrás da bola de meia; a rapaziada contando as aventuras do grogue e toucinho; histórias de vida narradas na loja de nha Joana d`Gualdino e de TiBeto; fofocas da vizinhança sob os olhares desconfiados de quem passa com o barril de água. Havia pessoas de todas as ilhas, cada um com seus hábitos e costumes, contudo, vivíamos como uma grande família. Ali morava TiCarlos, o humilde carregador de barris, uma figura incontornável da história salineira, Beto de Shell, um eterno desportista e, também, Zé Cabral, activista cultural que deu nome ao anfiteatro de Espargos.
Ribeira Funda, nos seus traços de ruralidade, tinha o seu lado cultural e desportivo que ainda hoje se reflecte no clube de Oderf. Jovens talentosos na arte de desenhar como Mário Cabral, Zé Paulo, Nuca e Duarte de nha Marintuinha; na música, havia os «Voz Beach», um grupo musical de instrumentos exóticos com os tambores da bateria feitos de lata e forrados de plástico, guitarras de pau com linhas de pesca e clarinetes fabricados com tubos de electricidade e casas de aranha onde arrancavam melodiosas sonoridades. Dos «músicos», retenho o nome de Jorge de nhô Quim e Quim de Joana Tatana. Outros artistas engenhosos como Aníbal de nhô Gabriel, Nunune e Roberto faziam carros de arame que eram perfeitas obras de arte. No futebol, entre pequenos e graúdos, destacavam-se nomes de craques como Gutinha, Humberto, Djodjim, Gute e Djoi Rocha. Certamente que omiti alguns nomes por esquecimento mas creio que todos nós nos identificamos com a história da Ribeira Funda.
A nossa infância foi vivida em alta velocidade. De manhã, tínhamos pressa nos afazeres de casa ou que a sineta do Externato desse o seu último suspiro para nos «libertar» ao que mais gostávamos que era jogar: jogar «matas» no largo da Escola de Nhô Padre, jogar futebol nos vários campos que circundavam a Ribeira Funda, jogar Tchintchom ou uril na Pracinha de Quebrode, fazer acrobacias em qualquer monte de areia da vizinhança, jogar tacada… enfim, a nossa ribeira era um parque de diversão.
A recreação prolongava-se até à noite nas cantigas de roda à frente da loja de Chia, ou brincando de «mãos-ao-ar» à espera do grito dos adultos chamando-nos para a casa. Ainda havia tempo para ouvir uma história sobre bruxas e «canelinhas». Parafraseando a velha canção do Gilberto, «Ribeira Funda deu-me régua e compasso // e o meu caminho pelo mundo eu mesmo traço».
Hoje, cada um tem a sua vida. Alguns amigos de infância não passam de meros «desconhecidos». Não sei se nós nos afastámos uns dos outros ou se foi o tempo que nos afastou; crescemos e cada um percorreu o seu destino; alguns por razões profissionais, outros por razões políticas, mas creio que haverá sempre um ponto de encontro na nossa história: a pequena aldeia da Ribeira Funda!
Evel Rocha
Ildo0836@gmail.com
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segunda-feira, 27 de junho de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
SALINEIROS DE CORAÇÃO (XX) – SERÁ O PROJECTO DO ENSINO SUPERIOR NO SAL UMA UTOPIA?
O Fórum Que Ensino superior Para o Sal foi marcado por dois momentos: primeiro, a declaração, nas entrelinhas, da ministra da Juventude que a população deverá preocupar-se mais com acções de «capacitação dos recursos humanos» num claro apelo à formação profissionalizante e, segundo, a apresentação dos resultados de um estudo onde o apresentador diz que em 311 inquiridos na ilha, apenas um se interessa por uma formação na área de turismo.
É legítimo a reivindicação da população. O sonho de qualquer estudante é ter um curso superior, o desejo de qualquer profissional é a sua auto-realização. Na visão de Maslow, cada indivíduo é munido da vocação inata à auto-realização (Maslow, 1970). Essa vocação, o topo da pirâmide, compreende o uso activo de todas as qualidades e habilidades, além do desenvolvimento e da aplicação plena da capacidade individual.
No espaço de pouco mais de um ano, foram realizados três fóruns e mais três palestras sobre o ensino superior e todos se convergiram ao mesmo resultado: a Ilha do Sal tem todas as condições para tal. Quanto ao estudo realizado pela Afrosondagem, a amostragem não é representativa da população tendo em conta a conveniência da mesma e o apresentador teve o cuidado de chamar a atenção para as limitações do trabalho que de modo nenhum deverá substituir a necessidade de um estudo de viabilidade com bases cientificas. As informações da RTC e os comentários nos sites online demonstram a ligeireza da comunicação social no tratamento deste estudo querendo de uma forma intencional legitimar os argumentos daqueles que acham que a ilha não tem condições para o ensino superior.

A Ilha vive um momento crucial na sua trajectória. O desenvolvimento deve ser medido, acima de tudo, do ponto de vista HUMANO e a presença do ensino superior representaria a alavanca capaz de marcar a diferença. A CRIAÇÃO DO ENSINO SUPERIOR NO SAL NÃO IMPLICA NECESSARIAMENTE A PRESENÇA DE UMA UNIVERSIDADE. É mais fácil a implementação de pólos universitários ou de um instituto politécnico com um projecto de desenvolvimento académico e científico, investindo no conhecimento, na criação do saber, nas competências que qualificam a sociedade civil e na inovação, mas acima de tudo com uma visão direccionada ao empreendedorismo. A estratégia da sua implementação deverá ter em conta que é necessário oferecer à população estudantil um ensino diferenciado àquilo que o mercado nacional vem oferecendo, apostando num ensino especializado, rompendo com a ortodoxia existente, pensar em termos de cooperação com outras escolas superiores já existentes e com as necessidades do mercado local – tendo o turismo como o principal foco de estudo.

A iniciativa dos salenses esteve sempre à frente das estratégias e da visão política dos sucessivos governos. Foi assim com a criação do liceu (antigo Externato), aconteceu com o aparecimento das indústrias salineira e turística e há de ser sempre assim enquanto continuarmos a registar a falta de visão, de estratégia e de vontade política. A última grande machadada no orgulho salense é sem dúvida a não construção da Escola de Hotelaria e Turismo. Tudo indica que brevemente teremos a primeira leva dos formandos no mercado de trabalho e nenhum deles pertence à ilha salineira. De certeza que estarão no Sal procurando o seu primeiro emprego.
Evel Rocha
Ildo0836@gmail.com
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É legítimo a reivindicação da população. O sonho de qualquer estudante é ter um curso superior, o desejo de qualquer profissional é a sua auto-realização. Na visão de Maslow, cada indivíduo é munido da vocação inata à auto-realização (Maslow, 1970). Essa vocação, o topo da pirâmide, compreende o uso activo de todas as qualidades e habilidades, além do desenvolvimento e da aplicação plena da capacidade individual.
No espaço de pouco mais de um ano, foram realizados três fóruns e mais três palestras sobre o ensino superior e todos se convergiram ao mesmo resultado: a Ilha do Sal tem todas as condições para tal. Quanto ao estudo realizado pela Afrosondagem, a amostragem não é representativa da população tendo em conta a conveniência da mesma e o apresentador teve o cuidado de chamar a atenção para as limitações do trabalho que de modo nenhum deverá substituir a necessidade de um estudo de viabilidade com bases cientificas. As informações da RTC e os comentários nos sites online demonstram a ligeireza da comunicação social no tratamento deste estudo querendo de uma forma intencional legitimar os argumentos daqueles que acham que a ilha não tem condições para o ensino superior.

A Ilha vive um momento crucial na sua trajectória. O desenvolvimento deve ser medido, acima de tudo, do ponto de vista HUMANO e a presença do ensino superior representaria a alavanca capaz de marcar a diferença. A CRIAÇÃO DO ENSINO SUPERIOR NO SAL NÃO IMPLICA NECESSARIAMENTE A PRESENÇA DE UMA UNIVERSIDADE. É mais fácil a implementação de pólos universitários ou de um instituto politécnico com um projecto de desenvolvimento académico e científico, investindo no conhecimento, na criação do saber, nas competências que qualificam a sociedade civil e na inovação, mas acima de tudo com uma visão direccionada ao empreendedorismo. A estratégia da sua implementação deverá ter em conta que é necessário oferecer à população estudantil um ensino diferenciado àquilo que o mercado nacional vem oferecendo, apostando num ensino especializado, rompendo com a ortodoxia existente, pensar em termos de cooperação com outras escolas superiores já existentes e com as necessidades do mercado local – tendo o turismo como o principal foco de estudo.

A iniciativa dos salenses esteve sempre à frente das estratégias e da visão política dos sucessivos governos. Foi assim com a criação do liceu (antigo Externato), aconteceu com o aparecimento das indústrias salineira e turística e há de ser sempre assim enquanto continuarmos a registar a falta de visão, de estratégia e de vontade política. A última grande machadada no orgulho salense é sem dúvida a não construção da Escola de Hotelaria e Turismo. Tudo indica que brevemente teremos a primeira leva dos formandos no mercado de trabalho e nenhum deles pertence à ilha salineira. De certeza que estarão no Sal procurando o seu primeiro emprego.
Evel Rocha
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terça-feira, 24 de maio de 2011
SALINEIROS DE CORAÇÃO (XIX) – O TURISMO E O DESENVOLVIMENTO HUMANO
O turismo na ilha do Sal atingiu o seu ponto de maturação relativamente às outras ilhas. A cintura balneária do sul da ilha ornamentada de resorts e hotéis de luxo, a cidade de Santa Maria com a sua diversidade de restaurantes e lojas, a modernização do aeroporto internacional e outras tantas infra-estruturas não foram acompanhadas com um forte investimento nas pessoas. É urgente um pólo da Escola de Turismo no Sal! Esta escola, do meu ponto de vista, deveria centrar-se na capacitação dos recursos humanos num primeiro momento de modo a garantir a qualidade dos serviços prestados. De entre outras atribuições, segundo Luiz Renato Ignarra (Fundamentos do turismo, 2000) através desta instituição, o Estado de Cabo Verde, estaria garantindo:
- controlo do uso e da conservação do património turístico;
- prestação de serviços de segurança pública;
- desenvolvimento de campanhas de conscientização turística;
- apoio ao desenvolvimento das actividades culturais locais, tais como artesanato, música, folclore, gastronomia típica, desportos náuticos, etc;
- apoio na melhoria e qualidade de vida das populações afectas ao turismo.
Num outro artigo, defendo que uma parte das receitas turísticas (pelo menos 50% das receitas) devem ser canalizadas para melhorar as condições de vida da população de modo a atenuar o impacto do turismo na mudança de vida dos mesmos, na mudança paisagística, na erosão, no sub-emprego, nos loteamentos que violentam o ambiente e na aglomeração do lixo.
Sem dúvida que temos das mais lindas praias do mundo, temos do melhor em matéria de clima, paisagens deslumbrantes mas o nosso maior património é e será sempre as pessoas. Fala-se em preservar as espécies endémicas, em proteger os animais em extinção (que ao longo dos séculos serviram de sustento para muitos cabo-verdianos) e esquece-se da vulnerabilidade duma boa parte da população. Deve-se continuar a apostar na preservação do ambiente mas também criar alternativas àqueles que ao longo da vida dependem dele. Há que reverter a situação ou então viveremos em constante ameaça; daí a necessidade de uma estratégia de desenvolvimento virada para as pessoas de modo que haja um melhor equilíbrio e sentido de justiça.
O desenvolvimento turístico poderá constituir numa agressão aos nativos se estes não virem as suas vidas melhoradas e se sentirem excluídas deste «pacote» de desenvolvimento que se quer. Deve-se evitar a todo custo o estado de assistencialismo instalado e dotar as pessoas de recursos capazes de fazer com eles próprios sejam os autores da sua própria transformação (auto-poiésis) e possam sentir como parte integrante do desenvolvimento sustentável que se quer em torno do turismo. Assim o desenvolvimento turístico deixaria de ser apenas responsabilidade do estado como promotor e os operadores turísticos como os concretizadores, passando a população a fazer parte deste desenvolvimento sustentável na sua dimensão social, afastando de vez a visão fatalista do assistencialismo.
As pessoas são a peça mais importante no complexo desenvolvimento destas ilhas e Sal deverá despontar como um exemplo à semelhança daquilo que acontece com a economia local.
Evel Rocha
Ildo0836@gmail.com
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quarta-feira, 18 de maio de 2011
Aguarela salense

Aguarela salense
Do sol repenicado
planície amarinhada de suor
sal da terra puída
miragem lunar das eiras nuas
sal que retempera alma
maresia perfumada
grinaldas de ondas em volley
praias douradas E polidas
pontão de colunas seculares
salinas de cristais E sois hexagonais
farol adormecido
terra boa desvairando chuva
murdeira desenhando o sol desnudado
pardais que flauteiam o paraíso
salmoura vulcânica
porto na folhagem da palmeira
pedra de fogo mourejando o feijoal
palha verde ressequida
morro leste, morrinho de açúcar
filhos do monte grande da fiúra agitada
que madama a minha pele parda
espargo de quânticas avenidas
nervura das folhas do meu tronco
praias de versos dourados
cidade da virgem padecente
cerne de línguas irmanadas
não canso de contemplar teu horizonte
vestido com o mais lindo por-do-sol

terça-feira, 3 de maio de 2011
SALINEIROS DE CORAÇÃO (XVIII) – MANUEL ANTÓNIO MARTINS, UMA FIGURA ESQUECIDA

A história é émula do tempo, repositório dos factos,
testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro.
Miguel Cervantes, in "Dom Quixote"
Dos comentários publicados em cada artigo que escrevo, quero destacar os desabafos carregados de mágoa e frustração de alguns salineiros que se sentem ultrajados pela forma como a história da ilha vem sendo esquecida e apagada em nome da prosperidade. A Cidade de Santa Maria, o símbolo da identidade salense, e Pedra de Lume, o berço da ilha, são as que mais têm sofrido com isso. Gostaria de me centrar um pouco na história do senhor Conselheiro Manuel António Martins (MAM), a figura de proa destas ilhas e, em particular da ilha do Sal, fundador das duas localidades anteriormente citadas. Segundo rezam as crónicas do século passado, este aventureiro, ao desembarcar na planície do centro-leste da ilha (Pedra de Lume), deslumbrado com a beleza e potencialidades do lago salgado, resolveu explorar aquilo que lhe pareceu uma fonte de riqueza na altura. Surge, então, em Cabo Verde e, quiçá, em todo o domínio português, o PRIMEIRO TÚNEL (1804-1808) que até hoje continua firmemente intacto. Em Santa Maria (1837), este mesmo senhor teve a proeza de construir a PRIMEIRA LINHA-FÉRREA, dezanove anos antes do império português e da África (Enciclopédia Britânica)! Há muitas histórias por contar sobre as condições de vida que se vivia na época. Vieira Botelho da Costa em “A Ilha do Sal de Cabo Verde” (Boletim da Sociedade de Geografia nº 11 de 1882), desperta a nossa imaginação ao descrever o percurso salineiro desde a sua extracção até ao embarque. Antes, tudo era transportado em balaios pelas mulheres que tinham que lutar contra o sol escaldante e a estrada arenosa, contra as lestadas e os resmungos dos capatazes. As vagonetas, quando não havia vento de feição, eram puxadas por mulas. Nhô Ivo Nunes, no seu jeito descontraído, conta que cometeu a proeza de estar envolvido no primeiro «acidente de viação» da ilha no momento em que conduzia uma vagoneta que vinha em «alta velocidade», acabando por bater num automóvel que atravessava a linha férrea – até nisso somos pioneiros! Já agora, puxando do meu orgulho salense, devo relembrar que o PRIMEIRO TELEFÉRICO também foi construído neste chão salgado.
Manuel António Martins precisa ser relembrado mais vezes e o seu nome deverá estar intimamente ligado à história desta ilha e, em particular à bela cidade de Santa Maria. Homem de visão, empreendedor por excelência, político arguto, a sua vida foi entremeada de altos e baixos: da alta esfera social passou a prisioneiro, de herói (empresário de sucesso) passou a perseguido pela lei, para nos últimos anos da sua vida ser reconhecido como Conselheiro do Rei.
Não podemos escamotear a história por mais adversa que ela seja e, em nome da verdade, o nome do senhor MAM precisa constar do roteiro turístico com marcos históricos que invocam as suas realizações. Em 2014 estaremos celebrando os 240 anos do nascimento desta figura emblemática não só do Sal mas de todo o Cabo Verde. Proponho que o ano seja dedicado ao Conselheiro Manuel António Martins e que as actividades sejam centradas na Cidade de Santa Maria onde ainda (até quando?) existe a casa em que ele viveu os melhores anos da sua vida e o túmulo onde repousam os seus ossos.
Evel Rocha
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quinta-feira, 28 de abril de 2011
SALINEIROS DE CORAÇÃO (XVII) – PARA QUANDO O RECONHECIMENTO DAS SALINAS DE PL COMO PATRIMÓNIO MUNDIAL?


As salinas de Pedra de Lume sobressaem no arquipélago como o maior e mais espectacular sítio de Cabo Verde. É o lugar mais conhecido e mencionado nos roteiros turísticos, a par da praia de Santa Maria. A 39,6 metros de altura acima do nível do mar, a cratera do vulcão era um imenso lago de água salgada. A data oficial do seu nascimento é de 1805 mas, segundo narram algumas crónicas, a exploração começou com a vinda de alguns escravos para a ilha, em 1799. Aos poucos, a cratera foi ganhando a configuração de um tabuleiro quadriculado, proporcionando aos visitantes um espectáculo único em todo o mundo. Pedra de Lume deve o seu nome às pederneiras que, quando golpeadas com um pedaço de aço, produzem lume.
No terceiro quartel do século passado, ainda as salinas tinham vida; ainda o teleférico transportava o sal para a refinaria onde era ensacado e armazenado; ainda o porto António Manuel Martins, a figura maior da ilha, aportava as grandes lanchas que recebiam o sal para os navios ancorados ao mar largo; ainda a festa de Nossa Senhora de Piedade atraía as gentes dos quatro povoados; ainda as salinas guardavam o seu esplendor, os cristais de sal hipnotizavam os viandantes que guardavam na memória o momento sublime em que visitavam um dos lugares mais lindos da terra!
Há quem defenda que se deveria transformar as salinas num centro de talassoterapia (cura pela água do mar); se isso acontecer, será um duro golpe ao maior monumento histórico destas ilhas; estaríamos consentindo que uma parte da nossa história fosse engolida pela ganância económica. O Estado de Cabo Verde deve assumir a sua responsabilidade na preservação do local de modo a garantir a qualidade e a preservação da condição natural deste bem maior que Deus nos concedeu. Devem os salineiros de coração assumir o seu papel de defensores da sua história e do seu espaço, fazer que a sua voz seja ouvida quando o futuro ou os seus interesses estão em jogo – há que cultivar mais a consciência salense, lembrando sempre que a protecção do património cultural ou natural, como é o caso, constitui uma obrigação moral, permitindo-lhe reconhecer as suas raízes culturais e sociais. Mas também é uma responsabilidade pública colectiva. Esta responsabilidade deve traduzir-se na adopção de legislação adequada e na busca de meios para a sua preservação. Penso que, pela importância das Salinas de Pedra de Lume, não será tão difícil de encontrar, por intermédio da UNESCO, financiamento para a requalificação ou reconstituição dum monumento da dimensão das salinas. Vulcões e cidades há muitos por este mundo fora mas paisagem natural como as salinas de Pedra de Lume só existe uma e ela está situada no nosso arquipélago. As salinas de Pedra de Lume ressaem como um património único pela sua beleza e configuração mas acima de tudo porque congrega os variados tipos de patrimónios existentes:
(1) um património natural – apesar das transformações sofridas ao longo dos últimos séculos, conserva os traços naturais de um vulcão extinto que o diferencia dos demais;
(2) um património edificado – o túnel de acesso, as lanchas, o cais, as casas, os resquícios das máquinas e teleférico, apesar da crueldade do tempo e dos homens, ainda estão lá para testemunharem o passado;
(3) um património cultural – ali se concretiza o intercâmbio de valores humanos, uma obra prima natural, o maior ponto de atracção turística das ilhas;
Há mais de duas décadas que especialistas da UNESCO vêm afirmando que as salinas de Pedra de Lume, devido às suas características histórico-culturais, naturais e terapêuticas, têm fortes potencialidades de virem a ser consideradas Património da Humanidade, contudo, falta vontade política para concretização deste sonho. Não tenho nada contra que se desenterrem cidades em busca da identidade ou que se elejam prisões como património mundial mas sou contra que se privilegiem certos sítios em detrimento de outros que por natureza evidenciam melhores condições.
Evel Rocha
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sábado, 16 de abril de 2011

SALINEIROS DE CORAÇÃO (XVI) – DJA D`SAL, UM HINO DE LOUVOR
Alcides Spencer Brito nasceu numa família de músicos. Filho de Nhô Mané Eugénia, irmão de Nhelas e Magui Spencer, todos artistas de renome. O seu repertório conta com músicas como «No Ca Babosa», «Cena de Ciúmes», «Paródia Familiar» mas o mais popular de todos que, em tempos, se tornou o hino da revolução é sem dúvida «Levanta Broce bo Grita bo Liberdade». Tchinôa tem tido alguma visibilidade como homem da música a nível nacional mas penso que a nível local, já é tempo de reconhecer e atribuir-lhe o devido destaque que merece.
A música «Dja d`Sal» é uma declaração de amor do autor à ilha que o viu nascer e o mais belo desta obra-prima é que ela traduz o sentimento dos salineiros de coração: sem o verde do vale de Paúl, sem o adorno da Brava em flor, sem o encanto das noites de Mindelo, Sal consegue ser o mel apetecido, a ilha «idolatrada» por aqueles que a amam de verdade. A primeira estrofe do hino «Dja d`Sal» é uma declaração de amor e fidelidade, a máxima expressão de louvor daqueles que viram esta ilha a crescer.
A segunda estrofe traz à memória os dias em que a ilha acolhia os desterrados, escorraçados do seu ninho, pescadores das ilhas vizinhas e pastores, os dias em que aqueles que pisavam esse chão ressequido contavam os dias de regresso e lamentavam a má sorte. Porém, de «castigode» passou a ser gente «bem papiode»; agora quem vem quer a sua parcela e fincar as suas raízes. Sim, só quem experimentou viver longe da terra mãe compreenderá estes versos de como deixou o seu torrão natal mas o coração ficou nas lembranças dos dias vividos na ilha.
A terceira estrofe é um compromisso de amar e honrar a ilha como se se tratasse de uma donzela, a nossa Sinderella, e por ela, bateremos como heróis para que continue brilhando no firmamento azul das dez estrelas douradas que compõem a nossa bandeira.
Sal de Manuel António Martins, Sal de Jorge Barbosa, ilha mágica da salina vulcânica, do areal puro de Santa Maria, das farras e tocatinas, das gentes vindas do mundo inteiro, babel de línguas, Sal da poesia e do trabalho… é esse o mundo mágico cantado por Tchinôa e todos nós fazemos parte deste coral de alegria e de prazer; é esse o mundo visualizado por Tchinoa, é isso que nos faz sonhar e nos orgulha de ser salense! Nunca é tarde demais para reconhecer o bem que os outros fizeram, por isso, aqui deixo a minha sincera homenagem ao senhor Alcides Spencer Brito.
Imaginem a música cantada um pouco mais lento por um coral, por exemplo, os alunos da Escola de Música Tututa dirigida pela professora Sadia Diouf. Não tenho dúvidas que esta obra-prima encaixa na perfeição no espírito e na alma salense. A simplicidade da letra e a riqueza melódica espelha o orgulho daqueles que se identificam como salineiros de coração. Esta música deveria ser decretada o hino da ilha do Sal, a pedra basilar na construção da consciência salense.
DJA D`SAL
Letra e Música de Alcídes Spencer Brito (Tchinoa)
D`xome na nha munde piquininin
D`xome na Dja Sal, Terra salgode
É um salgadura
Que tem doçura
Dia c´m dxa`l
É q`amargura
Ó Dja d`Sal
Onte bô foi terra d`gente
Castigode
Hoje bô é terra d`gente
Bem papiôde
Quem bem na bô
Ca ta largobe
Ta doeme ovi
Ta fla mal de bô
Ma f`ture de nôs tud
Ta na bô mon
D`agua azulin, oh q`sabura…!
É nôs esperança
Num f`tur d`bonança
Dja d`Sal
Nha ilha
Dja d`Sal
Nha Terra
Quem bem na bô
Ca ta largôbe
Evel Rocha
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